A SEITA

Dir. André Antônio. Ficção. Brasil, 2015, 70’. Livre.

Por Silvio Margarido

Esta ficção científica se passa na cidade abandonada do Recife, em 2040. Os mais ricos migraram da Terra para colônias espaciais e o protagonista, um jovem vivido por Pedro Neves, filho de uma dessas famílias ricas, entediado da colônia espacial, decide voltar para o Recife. Insone pelo efeito de uma vacina que tira o sono, ele passa o tempo lendo, andando pela cidade e em encontros com vários homens.

A sua vida passa frente ao contraste entre o vazio decadente de Recife e o apartamento bem decorado onde, além dos chás, corpos masculinos são servidos a um deleite melancólico. É clara a opção por uma estética gay que suprime, de certa forma, o carimbo genérico da heterossexualidade.

Em meio ao vazio existencial e a busca de sentidos, que imaginamos pela volatilidade do personagem, ele vai aos poucos percebendo sinais estranhos que o levam a uma misteriosa seita, onde uma substância, misturada à bebida, elimina o efeito da vacina que tira o sono. A seita é tida como a redenção por representar a esperança da volta ao sonho.

Ao final, tudo nada mais é que a lembrança de um futuro distante guardado nas memórias de um dândi diletante.

O Diretor, André Antônio, também assina o roteiro; a produção é de Dora Amorim e a fotografia de Breno César; a direção de arte de Thales Junqueira e figurino de Allyson Santos e Paulo Ricardo.

Contatos: andrebarbosa3@gmail.com

CUERPO DE LETRA

Dir. Julián d’Angiolillo. Argentina, 2015, 76’. Livre.

estreia-nacional

Por Silvio Margarido

O filme é um híbrido de documentário e ficção, e conta a história de grupos (brigadas) que fazem pichações políticas (pintadas) nas ruas, estradas e rodovias da cidade de Buenos Aires, especialmente em bairros com disputas locais.

Aqui o personagem é o letrista, mas o trabalho de equipe, a criatividade e a ousadia instalam o estilo. São jovens de brigadas, suas batalhas de sobrevivência, tornando-se valor de troca em suas atividades diárias e o trabalho noturno perigoso, os limites da legalidade e as mudanças na paisagem visual.

“ …La palabra tiene que leerse desde la distancia veloz de una autopista…”

Sem perder o caráter de arte e com a mesma aura de proibição do Graffiti, a Pintada é uma atividade da militância, da propaganda eleitoral e suas disputas políticas.

Corpo de letra seria uma metáfora, o corpo social em que a letra a ser medida é o corpo de cada indivíduo, aquele operário das letras nos muros. Uma provocação tipográfica numa representação audiovisual da sociedade.

Contato: sales@obracine.com

DIAS EXTRAÑOS

Dir. Juan Sebastián Quebrada. Argentina/Colômbia, 2015, 71’.

Por Marcelo Cordero Q.

Días extraños conta a relação de um casal colombiano que reside em Buenos Aires. Eles são impulsivos, hormonais, viscerais, rebeldes; seus dias aparentemente rotineiros estão carregados de festas, sexo, discussões, brigas e amor. Perambulam por uma cidade que é estranha para eles, são quase sobreviventes em um territorio hostil que não os reconhece, onde eles mesmos não se reconhecem.

O universo portenho deste filme não tem portenhos; constrói-se a partir do olhar do outro, da interpretação do estrangeiro; não à toa todos os personagens vêm de fora. Uma uruguaia e um asiático são os únicos que conseguem ter, digamos, uma relação com os protagonistas; o resto são uma sorte de objetos decorativos.

Juan Sebastian Quebrada retrata Buenos Aires em preto e branco, reforçando o conceito de alienação e solidão do espaço, do tempo, das relações humanas. Uma atmosfera niilista ao longo do filme é o que se respira, sente e te causa rechaço, tédio ou frustração. Na verdade, o filme é uma festa em si mesmo.

Um filme com um toque caicediano e de nouvelle vague, uma beleza rara no panorama da produção latina. Um objeto não-identificado, como muitos o catalogaram.

Contato: montanerocine@gmail.com

EL APÓSTATA

Dir. Federico Veiroj, Uruguay, 2015, 80 min.

Por Sebastian Morales Escoffier

Um jovem entra em uma igreja para obter uma cópia de sua certidão de batismo. Pouco tempo depois, o espectador percebe que o que parecia ser um trâmite normal se converterá em uma curiosa situação. O personagem principal do filme El apóstata, terceiro trabalho do uruguaio Federico Veiroj, necessita desse documento para iniciar o processo que lhe permitirá deixar de ser parte da Igreja Católica. Assim, busca que seu nome não apareça em nenhum registro da milenária instituição, seguer nos rituais de batismo.

Então tem início uma espécie de fábula, que lentamente vai se parecer muito como uma atualização do mito de Sísifo. Na verdade, o processo para a apostasia, o ato de negar a fé católica incutida no batismo, não será tão fácil já que, obviamente, a Igreja Católica não tem a intenção de perder um número em suas estatísticas de fiéis. Assim, as próprias intenções do protagonista como os obstáculos impostos pela igreja católica, vão construindo um filme baseado no que bem poderia ser chamado de estética do absurdo.

Contato: priscila@tucumanfilmes.com

PROCRASTINACIÓN

Dir. Sergio Pinedo, Bolivia, 2015, 75′

estreia-nacional

Por Marcelo Cordero Q.

A estréia de Sergio Pinedo é um obra cinematográfica curiosa, irreverente em sua proposta visual e de produção, que quebra todos os esquemas do que se pensa normalmente ser um filme feito com qualidade técnica e tecnologia de ponta. Procrastinação, a este respeito, é por excelência um filme de autor pensado fora da esfera do Cinema como entretenimiento ou produto industrial.

O universo do filme é construído a partir de uma montagem suja, aparentemente desleixada, câmera que não busca beleza, que não se limita a descrever situações, é uma ferramenta que desconstrói a realidade, que rompe as fronteiras entre ficção e documentário. A intenção mesma do diretor de filmar em VHS tem como finalidade provocar mal-estar no espectador obrigando-o a questionar sua identidade, sua cultura, seus costumes e tradições, neste caso de ser boliviano como categoria.

Procrastinação é um manifiesto antropológico, sociológico e estético que busca retratar e entender o que significa ser boliviano em tempos nos quais o discurso político fala de descolonização e revolução.

Contato: sergio.pinedo.grillo@gmail.com

LA ONCE

Dir. Maite Alberdi. Documentário. Chile, 2014, 70’. Livre.

estreia-nacional

Por Sebastian Morales Escoffier

O documentário de Maite Alberdi aloja sua câmera em um espaço onde se realiza um curioso ritual diário. De tempos em tempos, um grupo de mulheres idosas se reúnem para beber chá, “a onze” em gíria chilena. As mulheres fazem esse ritual desde seus dias de juventude, quando saíram do colégio. Assim, a onze que as senhoras realizam mensalmente se traduz em muitos anos de encontro, momentos ideais não só para relembrar o passado, mas também para recuperar, através do contato com as amigas, suas atitudes juvenis.

A câmera de Alberdi filmou durante vários anos os encontros das senhoras, alcançando um enorme grau de intimidade com suas personagens. Isso permite à diretora construir um relato baseado em detalhes sutis, em uma dialética entre a diferença e a repetição. Assim, todas as reuniões começam de uma maneira semelhante, a preparação de uma enorme quantidade de pratos, a chegada das convidadas, uma pequena oração e, finalmente, uma frase tirada de um livro que inicia uma pequena reflexão entre as senhoras.

Contato: maitealberdi@micromundo.cl

O PREFEITO

Prefeito trabalhando

Dir. Bruno Safadi. Ficção. Brasil, 2015, 70’. Livre.

Por José Romero Carrillo

Um prefeito decide a emancipar a cidade do Rio de Janeiro do resto do Brasil e declarar-se o governador de todo este novo país. Esta ideia delirante é o ponto de partida para o retrato de um anti-herói que desce aos abismos da corrupção, depois de uma visão idílica de uma sociedade mais justa e igualitária. O diretor Bruno Safadi usa simbolismos e excessos para recriar o nascimento e a morte de uma proposta revolucionária. O desgoverno de uma cidade quebrada que, como tudo o que envolve este farsesco personagem, nos leva à mais tristemente precisa concepção de um político com que a sétima arte nos brindou. Uma suculenta combinação de cinema experimental e humor corrosivo que não tinha sido visto no cinema brasileiro recente.

Contato: bruno.safadi80@gmail.com

EL MOVIMIENTO

Dir. Benjamin Naishtat. Argentina/Coreia do Sul, 2015, 70’.

Por José Romero Carrillo

Apocalíptica e hipnótica aproximação ao gênero do western gauchesco, através da história de um líder e seu grupo de renegados que andam pelo interior de uma Argentina empobrecida buscando adeptos ao movimento, uma obscura organização da qual pouco se nos diz, e só se repete, um discurso político cansado tão febril quanto ensurdecedor, com o único objetivo de poder absoluto para subjugar uma sociedade em estado quase primário. Desde a referência direta – tanto pelo enquadramento quanto pelo monocromatismo – a Jauja, de Lisandro Alonso, também se podem encontrar vestígios do estilo mais poderoso de Sam Peckinpah. O cineasta Benjamin Naishtat oferece, em resumo, o empoeirado fresco de um sinistro e ganancioso grupo político em tempos de descontentamento popular.

Contato: scardaccionemarina@gmail.com

SAMURAY-S

Dir. Raul Perrone. Ficção. Argentina, 2015, 110’.

estreia-nacional

Por José Romero Carrillo

O incombustível Raúl Perrone persiste em sua busca por expandir as fronteiras da expressão cinematográfica, iniciado no épico suburbano ” P3ND3J05 “.

Em “Samuray-S” sua escolha se extrema, radicaliza ou apaixona, alguns podem dizer, mas a expectativa que provoca cada nova entrega do mestre de Ituzaingó justifica uma visão que pode resultar em uma experiência agradável ou contraditória. Nesta ocasião, Perrone encadeia três episódios argumentalmente distintos e de pouca originalidade e para despejar sobre eles todo o seu imaginário – tão fascinante como visceral – em que sua reconhecível desmitificação formal e metafórica das texturas do cinema, não é mais que uma declaração confessa de admiração a obras fundamentais que alguma vez o cativaram.

Contato: pablo@trivialmedia.com.ar

VIDEOFILIA E OUTRAS SÍNDROMES VIRAIS

Dir. Juan Daniel F. Molero. Ficção. Peru, 2015, 103’.

Por Sebastian Morales Escoffier

A estréia de Daniel Molero, Videofilia e outras síndromes virais, conta a história de um jovem que embarca em um negócio estranho: fazer vídeos pornográficos amadores. O personagem principal conhece pela internet uma mulher mais jovem do que ele, a qual decide entrar no jogo. O filme começa com encontros de sexo virtual e finalmente relações sexuais de verdade. O jovem aproveita a disposição da mulher para filmar seus encontros sexuais sem que ela saiba muito bem suas intenções. Enquanto a relação entre os dois personagens passa do virtual para o real, o filme em si mesmo propõe um vai-e-vem entre diferentes níveis de realidade.

Assim, a história do filme de Molero é simplesmente um pretexto, um pano de fundo para explorações formais com a imagem marcada com o sinal de estranheza. Se o filme às vezes aparece como uma espécie de thriller psicológico, não é tanto pela relação estabelecida entre os personagens, mas sim pela forma como o filme é construído. Na verdade, é um jogo com o espectador a partir da percepção.

Contato: ncarrasco90@gmail.com