O diabo de Cali

Cali: de película (Luis Ospina e Carlos Mayolo, 1973) começa com uma constatação lapidar: é inútil que esta cidade colombiana tente espantar o diabo com três cruzes cravadas em suas montanhas, quando o maligno sempre viveu dentro dela.

Extrapolando essa sentença, caberia afirmar que Cali não deveria procurar Cinema para além de suas fronteiras, quando dentro dela viveu e ainda vive um prodigioso alquimista das imagens em movimento: Luis Ospina (Cali, 1949).

A cidade natal de Ospina é, na verdade, uma das chaves para compreender e valorar seus filmes. Não apenas aparece textualmente em vários dos seus títulos, como é o cenário vital e visual em torno do qual orbitam boa parte das histórias, pessoas e preocupações que ocupam sua obra. Longe de merecer um olhar turístico, condescendente ou provinciano, Cali se revela nos filmes de Ospina como uma cidade onde a tradição e a modernidade coexistem graças à criatividade de seu povo, embora nem sempre sem tensões.

Outra chave do cinema de Ospina é a sua vocação autorreflexiva. Documentários como Agarrando pueblo (1978) ou En busca de María (1985) encarnam essa sua necessidade de reflexão sobre o fazer cinematográfico e algumas questões associadas a ele, como a memória ou a manipulação visual da pobreza em forma de “pornomiséria”. Em Un tigre de papel (2007) e La desazón suprema: retrato incessante de Fernando Vallejo (2003), o gesto autorreflexivo estende-se a outras disciplinas artísticas e, claro, a seus autores, em cujos processos criativos o cineasta explora e descobre a própria forma que hão de adotar suas imagens.

É, portanto, um evento de importância primordial que o Festival Pachamama – Cinema de Fornteira ofereça a primeira retrospectiva em solo brasileiro de um dos cineastas latino-americanos mais estimulantes do último meio século. Um criador que, como o diabo, encontrou na sua aldeia o melhor lugar para consumar a sua vocação universal.

Santiago Espinoza A.

Jornalista e crítico de cinema convidado do VI Festival Internacional Pachamama – Cinema de Fronteira

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AGARRANDO PUEBLO

Dir. Luis Ospina. Ficção. Colômbia, 1978, 27’.

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Filme de ação que simula ser um documentário sobre cineastas que exploram a miséria com fins comerciais. É uma crítica mordaz à “pornomiséria” e ao oportunismo dos documentaristas desonestos que fazem documentários “sociopolíticos” no Terceiro Mundo com o objetivo de vendê-los na Europa e ganhar prêmios.

CALI DE PELÍCULA

Dir. Luis Ospina. Documentário. Colômbia, 1973, 14’.

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estreia-nacionalDocumentário satírico sobre a Feira de Cali.

EM BUSCA DE MARÍA

Dir. Luis Ospina. Documentário. Colômbia, 1985, 15’.

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estreia-nacionalA partir dos únicos quatro planos que sobrevivem do primeiro longametragem mudo colombiano María (1921), do espanhol Máximo Calvo, o documentário combina as técnicas de pesquisa histórica, da entrevista e da reconstrução cênica para resgatar a memória de um filme perdido.

LA DESAZÓN SUPREMA

Dir. Luis Ospina. Documentário. Colômbia, 2003, 90’.

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estreia-nacionalDocumentário sobre Fernando Vallejo, o polêmico escritor colombiano residente no México. Ao decidir falar em seu próprio nome e assumir sem subterfúgios ou disfarces seus amores e ódios, Vallejo quebra a mais obstinada tradição literária: a do narrador onisciente que tudo sabe e vê.

OIGA VEA

Dir. Luis Ospina. Documentário. Colômbia, 1972, 72’.

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estreia-nacionalDocumentário de denúncia sobre o efeito, sobre a cidade de Cali, dos VI Jogos Pan-Americanos, vistos sob a perspectiva das pessoas que não puderam adentrar os estádios.

PURA SANGRE

Dir. Luis Ospina. Ficção. Colômbia, 1982, 82’.

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estreia-nacionalO estranho desaparecimento de crianças e o aparecimento recorrente de seus cadáveres nus em áreas despovoadas de Cali criam um estado de terror e pânico na cidade. O imaginário popular e a mídia tecem hipóteses em torno dos crimes: fala-se de um sádico, um monstro, um vampiro.

SOPLO DE VIDA

Dir. Luis Ospina. Ficção. Colômbia, 1999, 110’.

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estreia-nacionalFierro, ex-policial, investiga o assassinato de uma bela jovem senhora, em um hotel decadente no centro de Bogotá. Aos poucos conhece a incomum galeria de homens com que ela se relacionava, e acaba enredado entre eles.

UN TIGRE DE PAPEL

Dir. Luis Ospina. Documentário. Colômbia, 2007, 114’.

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Usando como pretexto a vida e a obra de Pedro Manrique Figueroa, precursor da colagem na Colômbia, o filme nos leva através da história entre 1934 e 1981, ano do misterioso desaparecimento do artista.