Cinema de Fronteira

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Cinema de Fronteira 2017-11-12T15:51:28+00:00

O Brasil passa por um dos piores momentos políticos e éticos de sua história, o fracasso moral e um sem fim de erros ​​dos chamados progressistas nos âmbitos político, econômico, de segurança e – principalmente – educação, acompanhados de altos graus de corrupção governamental, abriram a porteira para que o pensamento retrógrado, fascista, conservador e reacionário se instale com força em um grande segmento da população brasileira. Paradoxalmente no segmento “nova classe média”, que mais se favoreceu com as políticas públicas implementadas sob o governo petista, e que soma força aos tradicionais grupos de poder contrários às políticas progressistas.

O alto grau de frustração e insegurança provocou um panorama desolador, onde a intolerância e o fundamentalismo promovidos por grupos políticos autodenominados de direita e certos grupos religiosos de tintura cristã, sob interesses corporativos, empresariais e agropecuários, empreendem uma cruzada onde prometem libertar a população de todos os males que a afligem e que, de acordo com eles, são uma consequência do pensamento de esquerda. Neste contexto, alçam-se vozes que pedem a volta da ditadura militar e, como se não bastasse, celebram-se ditadores como heróis da pátria; a censura vai atrás do conhecimento e pensamento crítico, sem contar a criminalização de manifestações artísticas e outras religiões; de fato, arte, artistas e pensadores que não convergem com esse pensamento são o novo inimigo da família tradicional e do progresso brasileiro.

O Estado do Acre, onde tem lugar o Festival Pachamama, registrou, entre janeiro do ano passado e novembro deste ano mais de 600 atos de violência que acabaram em morte, resultado da guerra de facções criminosas ligadas ao narcotráfico, onde jovens com idades compreendidas entre 13 e 30 anos são vítimas da violência resultante da pobreza e da falta de oportunidades. Curiosamente, para um grande número de críticos da família tradicional e do progresso brasileiro, essas mortes fazem parte do câncer que deve ser eliminado. Não é coincidência que candidatos com aspirações presidenciais e seus seguidores promovam o discurso reacionário e conservador como única saída.

Neste contexto obscurantista, explicado de forma geral, chega a oitava edição do Festival Internacional Pachamama Cinema de Fronteira. Evento que acontecerá na cidade de Rio Branco, Estado do Acre, de 18 a 25 de novembro. Esta edição caracteriza-se por ser executada literalmente com zero recursos financeiros, resultado da crise descrita e que colocou em cheque a todos os patrocinadores que nos apoiavam.

De fato, o Festival sempre foi pequeno, produzido graças à iniciativa civil, mas, se antes foi difícil, este ano é sem antecedentes. No entanto, em tempos de crise é quando surgem novas oportunidades, e pode descobrir verdadeiros guerreiros, reafirmar laços de amizade sincera, comprometida com a causa, porque Pachamama é isso: uma causa com o Cinema, com a Cultura, com a Arte.

Por sua parte há uma mudança de direção: Sérgio de Carvalho, diretor do Pachamama até o ano passado, assume a Presidência da Fundação Garibaldi de Cultura, instância pertencente à Prefeitura da cidade de Rio Branco. É assim que o Festival estreia nova direção, a mesma que cai em minhas mãos.

Este ano de 2017, tentei tanto quanto possível, apesar dos antecedentes, manter a quantidade de espaços disponíveis para as atividades, com o objetivo de alcançar o maior número possível de cidadãos, assim como a quantidade de filmes que nos acompanham, mantendo a qualidade e diversidade das propostas cinematográficas programadas para a presente edição. Embora este ano seja de vacas magras, a presença de convidados internacionais e nacionais, bem como o desenvolvimento de atividades paralelas também será uma realidade – dentro, é claro, do contexto financeiro.

A festa do cinema na Amazônia se constrói tijolo por tijolo. Pachamama é e seguirá sendo uma trincheira, uma referência de resistência, diálogo, produção e encontro cultural; por isso, junto a toda a equipe que hoje carrega em seus ombros o evento, decidimos não retroceder, porque o caminho se faz ao andar.

Sejam bem-vindos ao encontro da cinefilia na Amazônia.

Marcelo Cordero Q.

Diretor Artístico

VIII Festival Internacional Pachamama
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