Crítica de Chaco

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Por Bruno Carmelo | Papo de cinema

SINOPSE
Bolívia e Paraguai estão em guerra no ano de 1934. Os jovens soldados bolivianos se deslocam pela zona árida do Chaco, em busca do inimigo. No entanto, adversário nunca é encontrado. Mesmo assim, o capitão alemão ordena que permaneçam no local.

CRÍTICA
Julgando pela cena inicial, Chaco (2020) constitui um típico filme histórico de guerra, do tipo que se inicia com letreiros explicativos (a respeito do confronto entre Bolívia e Paraguai, em 1934) e parte para o terreno de combate. No entanto, alguns elementos destoam das expectativas do cinema-espetáculo: em primeiro lugar, não existe adversário para os soldados bolivianos. Talvez ele exista em alguma cidade distante, porém os personagens passam dia e noite se deslocando pela região do Chaco à procura do inimigo invisível. “Não disparamos nenhuma bala há meses, capitão”, reclamam os soldados, pedindo para voltarem, ou encontrarem outro foco de ação. No entanto, permanecem presos à região. De que serve uma guerra sem oponentes, uma batalha em solitário? Os homens logo se sentem explorados. A exemplo de Zama (2017), o projeto do diretor Diego Mondaca critica a guerra por sua inutilidade, seu caráter artificial. Ao invés de lançar os personagens em direção de tiros e bombas, explora a preparação para um ataque inexistente, as caminhadas sem rumo sob o forte sol, em terrenos áridos e empoeirados. O filme se torna a crônica de um impasse.

Em segundo lugar, o cineasta rompe com os preceitos da produção de guerra. Ao invés da tradicional janela em scope, destinada a valorizar os espaços e o grande número de personagens, escolhe o formato 1 x 1.33, próximo do quadrado, herdeiro da televisão clássica. Deste modo, força o espectador a se atentar ao conteúdo humano, ao invés dos cenários pouco idealizados. A direção de fotografia privilegia os dias brancos, as névoas espessas, porém sem contraste, contraluz ou qualquer forma de embelezamento. Os espaços soam idênticos, como se os personagens andassem em círculos, o que favorece a impressão de absurdo dos deslocamentos. Ironicamente, apesar de tamanha atenção ao aspecto humano, o diretor evita os close-ups, as histórias de origem dos soldados e os instantes de sentimentalismo. Estes jovens são observados à distância, tornando-se semelhantes entre si, e também intercambiáveis. Não existe um protagonista propriamente dito: após uma sequência envolvendo o Cabo Liborio (Raimundo Ramos), a narrativa passa aos dilemas do Soldado Jacinto (Fausto Castellón), depois do Soldado Ticona (Omar Calisaya), para então retornar a Liborio esporadicamente. O espectador não é levado a se identificar com nenhum deles, visto que a história é narrada por um olhar externo, onisciente.

Aos poucos, o projeto demonstra afinidade com outros gêneros: sem a guerra propriamente dita, Chaco se aproxima do western, do filme de cangaço brasileiro, do road movie e até do suspense, quando os militares questionam a autoridade do Capitão Kundt (Fabián Arenillas). Mondaca elabora sequências impressionantes em termos estéticos, introduzidas na função de pausas poéticas, ao invés de servirem a um propósito narrativo preciso. A abertura, quando um único soldado interrompe a sua caminhada, observando a chegada da chuva enquanto os colegas seguem adiante, e o delírio do soldado franzino carregando o pesado material após a morte da mula remetem ao melhor do cinema vanguardista latino-americano dos anos 1960, que buscava uma linguagem autônoma para esta “estética da fome”. Ao mesmo tempo, as cenas impecavelmente produzidas e editadas jamais se convertem num exercício de vaidade da direção – elas servem à narrativa, em estilo coeso do início ao fim. A estética possui um caminho em si própria: a história gradativamente abraça o realismo fantástico.

Em termos de ambientação, o diretor orquestra muito bem o som, a luz, as cores e a duração dos planos para desenvolver o sentimento de desgaste físico e emocional. Percebe-se progressivamente o cansaço, a desidratação, a fome, e a consequente perda de referências. Sem inimigos paraguaios, eles se tornam os adversários de si próprios, criando complôs, mentiras, perseguindo desertores e executando ordens injustificáveis. O Capitão joga os protagonistas uns contra os outros, garantindo que a revolta nunca se volte contra a instituição do exército. A principal linha narrativa do longa-metragem se encontra na intensificação microscópica, porém certeira, do esgotamento da tropa. Embora a guerra nos prepare para contrastes extremos (vivo ou morto, herói ou vilão), este filme privilegia o lento desaparecimento de rapazes destituídos de sua humanidade. “Nós vamos morrer”, percebe um personagem com certa melancolia. Ele não se refere ao ataque boliviano, mas à eventual morte por exaustão. Existe um aspecto sádico nesta batalha, explorando jovens ingênuos em nome de um patriotismo ilusório.

A beleza de Chaco se encontra na convivência irônica entre a inércia (a andança interminável) e a finalidade (a proximidade da morte), entre a noção de dever e honra e a degradação de corpos e mentes. Ao invés de desenhar heróis e anti-heróis, de resgatar passagens específicas desta batalha, Mondaca prefere criar um teatro do absurdo a respeito das guerras em geral. A conclusão, tão bela quanto desoladora, comprova o pessimismo do autor quanto à função destes embates históricos. Talvez o espectador mergulhe nesta aventura esperando uma condução empolgante, repleta de tensão e dilemas morais. No entanto, encontra uma coletividade anônima junta a cenas de tortura sem alarde (a sequência das formigas) e um sucessão labiríntica dos dias e dos locais. O diretor rompe com duas das características mais importantes do gênero histórico: a determinação precisa do tempo e do espaço. Assim, os personagens povoam uma fábula universal, e simultaneamente bastante latino-americana. As graves falhas do nosso passado nos dizem muito sobre a configuração das sociedades atuais.

Filme visto online no XI Festival Internacional Pachamama – Cinema de Fronteira, em maio de 2021.